O carnaval que ninguém vê…/ submarine garbage in Bahia

matéria enviada por e-mail pelo amigo Marcelo A.M.

A seguir o relato de Bernardo Mussi que resolveu mergulhar na época do carnaval e mostrar o que acontece com o mar durante o período …a seguir o relato:

“Dez dias após o carnaval, resolvi mergulhar com dois amigos na área do Farol da Barra para confirmar a notícia de que havia uma quantidade absurda de lixo espalhada pelo fundo do mar naquela área.

Mesmo com a água um pouco suja por causa das chuvas do dia anterior, logo identificamos o local. Na verdade o lixo não estava espalhado, mas concentrado em um canal provavelmente em razão do movimento das marés. Uma cena lamentável! Eram pelo menos mil e quinhentas latinhas metálicas e garrafas plásticas.


Da superfície o visual parecia com as imagens áreas que vemos dos blocos de carnaval durante a festa momesca. Só que ao invés de estarem pulando, dançando e se beijando ao som frenético e ensurdecedor dos trios elétricos, os foliões do fundo do mar estavam rolando de um lado para o outro numa mórbida coreografia, empurrados silenciosamente pelo balanço do mar, sem dança, sem alegria, sem vida e sem poesia.

Fomos então, no terceiro dia após o primeiro mergulho, retirar o material. Antes, porém, fiz questão de chamar um amigo que tem uma caixa estanque para filmarmos a ação e guardarmos o documentário visando trabalhos futuros e até mesmo a matéria que queríamos na TV.

Sem cilindro de ar e contando apenas com duas pranchas de SUP (Stand Up Paddle) e alguns sacos grandes, éramos quatro mergulhadores ousados retirando do fundo do mar tudo o que podíamos naquela tarde.

Pouco antes de o sol se pôr conseguimos finalmente colocar todo o lixo na calçada.
Muitos curiosos, inclusive turistas, olhavam intrigados a nossa atitude e a todo o instante nos questionavam sobre a origem daquele resíduo. A resposta estava na ponta da língua: Carnaval!
Aproveito o embalo para incluir indignação semelhante sobre os eventos realizados na praia do Porto da Barra durante o verão.

O “Música no Porto” e o “Espicha Verão” não tem trazido nada de bom para nossa cidade, além da oportunidade de vermos ótimos artistas de perto e de graça. De resto, o lixo, o mau cheiro, a degradação ambiental, o xixi pelas ruas, a impressionante quantidade de ambulantes amontoados por todos os espaços públicos e a agressão aos patrimônios históricos, são um grande “pé na bunda” do turista de qualidade.
É o mesmo que olhar para uma bela maçã com a casca brilhante e aspecto suculento, porém, apodrecida por dentro…
Naquele final de tarde acabamos contemplando um por do sol diferente. O monte de lixo empilhado na calçada do Farol da Barra virou atração. E como Deus é grande, fomos brindados com a presença de valorosos catadores de rua para finalizar a limpeza

O fundo do mar não merece aquele bloco reluzente e, ao contrário do asfalto, o oceano costuma revidar violentamente as agressões sofridas.

Não tem alegria alguma no fundo da folia!”
Fotos: Francisco Pedro / Projeto Lixo Marinho – Global Garbage Brasilfrancisco.pedro@globalgarbage.org
Fotos do Espicha Verão 2010: João Ramos / Bahiatursa e Luciano da Matta / Agência A Tarde
Nota:A matéria O fundo da folia foi publicada no dia 05 de março. No dia 15 de março, nós substituímos as fotos do Espicha Verão 2010. As fotos atuais (Bahiatursa e Agência A Tarde) foram feitas no dia 13 de março, encerramento do Espicha Verão 2010. A campanha pela preservação do meio ambiente, coordenada pelo IMA – Instituto de Meio Ambiente do Estado da Bahia, só foi realizada no dia do fechamento (13 de março) do Espicha Verão 2010.
Link: http://www.globalgarbage.org/blog/index.php/2010/03/05/o-fundo-da-folia/
Link para Twitter: http://bit.ly/c0OvJq
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